O que esperar para um futuro próximo?
Contrariando o que a maioria dos agentes econômicos imaginava, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu continuar o processo de elevação da taxa básica de juros da economia brasileira iniciado em setembro passado. A taxa Selic que era de 16% em agosto de 2004 sofreu oito aumentos mensais consecutivos e atingiu 19,5% em abril de 2005. Essa decisão consolida o Brasil na incômoda posição de campeão mundial de taxas reais de juros.
Nos últimas semanas foram divulgados alguns índices de preços com variações acima do esperado, o que fez com que em abril as projeções de inflação do mercado financeiro se acelerassem e ultrapassassem a meta fixada pelo governo. O Banco Central (Bacen) viu nisso uma ameaça de descontrole inflacionário e reagiu, como sempre tem feito, aumentando os juros.
É duvidoso falar em descontrole inflacionário quando se tem um quadro em que as expectativas se deterioram por fatores de curto prazo, pontuais, temporários. Houve elevação das tarifas de ônibus em São Paulo, há também pressões de outros preços administrados e das cotações internacionais de commodities. Além disso, sempre é muito arriscado que o Banco Central tome decisões que afetem o lado real da economia baseado no humor do mercado financeiro, que é muito volátil e, portanto, sujeito à influência de fatores de curto prazo que não se sustentam por muito tempo.
Outro aspecto relevante é o fato que o processo de elevação dos juros, iniciado no ano passado, ainda não produziu todo seu efeito. As últimas altas da Selic ainda não surtiram efeito completo de contração da atividade econômica, razão pela qual o novo aumento dos juros pode significar o que os economistas chamam de overshooting (elevação exagerada) dos juros e produzir uma desaceleração econômica desnecessária.
É preciso dizer que os últimos dados do IBGE já mostram sinais de diminuição do ritmo do crescimento econômico. O comércio teve em fevereiro último crescimento de 1,32% em relação ao mesmo mês de 2004, o que representou o pior desempenho para o setor em 15 meses. Na indústria, houve queda de 1,2% da produção industrial em fevereiro sobre o mês anterior. Ressalve-se que esses resultados são de fevereiro e que, portanto, não incorporam os efeitos dos aumentos da taxa de juros dos últimos meses.
A política monetária ultraconservadora do Bacen também tem produzido dois efeitos, não tão perceptíveis para não especialistas quanto a diminuição das vendas, mas igualmente deletérios para o futuro próximo da economia brasileira. Ao atrair capital externo, os juros elevados fazem com que o dólar fique barato e o real se valorize, o que desestimula os exportadores brasileiros. Outra conseqüência negativa da atual política de juros é seu efeito sobre as finanças públicas. Como o governo é o grande devedor, quando os juros sobem, ele precisa diminuir seus gastos com saúde, educação e infra-estrutura para pagar mais juros ou sua dívida irá aumentar.
A surpreendentemente renovada inclinação do Bacen para aumentar juros faz o futuro próximo da economia brasileira ser preocupante. Está claro que, mesmo cessado o processo de alta, os juros não cairão tão cedo e os resultados negativos sobre a economia dos elevadíssimos juros ainda perdurarão.
João Pamplona
Profissão: assessor econômico da Equifax
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