Crédito e comércio varejista no brasil
O IBGE divulgou recentemente o primeiro dado referente ao desempenho do comércio varejista no Brasil em 2005. Em janeiro último, o volume de vendas cresceu 6,2% em comparação com o mesmo mês de 2004. É uma variação menor do que aquela ocorrida em dezembro do ano passado (11,4%), porém, considerando-se a base de comparação mais alta de 2005, essa variação reflete ainda um desempenho bastante expressivo do comércio brasileiro.
Diante dessa observação, as perguntas que surgem são as seguintes: por que o varejo está resistindo à política de alta de juros executada pelo Banco Central desde setembro de 2004? E até quando essa resistência durará?
Apesar do aumento da taxa básica Selic, os juros cobrados diretamente dos consumidores, sejam através do crédito pessoal ou do crédito para aquisição de bens, mantiveram-se em trajetória declinante em 2004. Também relevante foi o aumento dos prazos médio das operações de crédito, especialmente em modalidades como o crédito pessoal. Além disso, a existência do crédito consignado (empréstimo com desconto em folha de pagamento) e das parcerias criadas entre grandes bancos e grandes redes de varejo melhoraram a oferta de crédito. Acrescenta-se a maior estabilidade da economia que fez com que o risco de crédito diminuísse. Outro fator foi o aumento da confiança do consumidor, trazida pela recuperação do mercado de trabalho, que aumentou seu apetite por crédito.
A importância do crédito para explicar a performance positiva do comércio no Brasil pode ser percebida no fato de que os subsetores que impulsionaram o varejo, em 2004 e agora em 2005, são os que mais respondem à disponibilidade de crédito, ou seja, os ramos de “móveis e eletrodomésticos” e de “veículos, motos, partes e peças”. Em janeiro último, comparado a janeiro do ano passado, o crescimento desses segmentos foi de 19,59% e 11,38%, respectivamente.
Por outro lado, os dados sobre operações de crédito de janeiro e fevereiro revelam elementos de preocupação para o futuro das vendas do varejo no Brasil. Segundo o Banco Central, a taxa média cobrada nas operações de crédito pessoal subiu de 70,8% ao ano em dezembro de 2004 para 74,5% em janeiro de 2005. De acordo com a Anefac (Associação Nacional dos Executivos em Finanças, Administração e Contabilidade), o comércio aumentou os juros ao consumidor em fevereiro e as taxas médias passaram a ser as maiores já observadas nos últimos 12 meses.
A probabilidade de que esses aumentos continuem nos próximos meses é grande. O Banco Central elevou, agora em março, os juros básicos da economia pela sétima vez consecutiva. Foi um aumento de 0,5 ponto percentual (a taxa passou de 18,75% para 19,25%), quando era esperado um aumento de apenas 0,25 ponto percentual. Além disso, o Bacen não deu nenhum sinal de que pretenda cessar essa trajetória de alta. O fato é que os executores da política monetária vêem com preocupação a expansão que houve recentemente no crédito e estão dispostos a estancá-la. Assim, considerando a renovada postura conservadora do Bacen, o comércio varejista terá dificuldades adicionais para fazer do crédito sua principal força impulsionadora, como tinha feito até aqui.
João Pamplona
Profissão: assessor econômico da Equifax
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