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A armadilha do dólar barato

Desde setembro último o Banco Central do Brasil vem elevando continuamente a taxa básica de juros da economia. Ela que permaneceu estável em 16% ao ano de abril a agosto de 2004 atingiu agora, em fevereiro, 18,75%. Isso coloca o Brasil na liderança isolada do ranking dos países com as maiores taxas de juros reais do mundo.

A explicação apresentada pelo governo é que a política monetária precisa ser restritiva porque caso contrário a variação do nível geral de preços da economia (inflação) em 2005 ficaria acima da meta de 5,1% fixada para esse ano. Mas como os juros afetam a inflação? A elevação dos juros produz desaquecimento econômico, ou seja, as vendas caem. Com financiamentos mais caros, os consumidores cortam seus gastos. Os produtores por sua vez tendem a diminuir a produção, em razão da queda dos pedidos do comércio, e adiar investimentos, em razão da vantagem maior da aplicação financeira. Isso gera desemprego, que somado à queda das vendas, faz com que os salários e os outros preços da economia tendam a cair.

O problema é que se a meta de inflação é irrealista ou se a avaliação dos formuladores da política econômica é excessivamente conservadora, o país pode ser submetido a uma contração desnecessária da atividade econômica, a um erro grave de dosagem. Além disso, no caso brasileiro, um outro efeito ainda mais deletério das taxas de juros reais elevadas aparece: a valorização cambial. Nos últimos meses o dólar tem perdido valor frente ao real numa proporção muito superior àquela verificada com a moeda de outros países.

O dólar fica barato porque os altos juros reais brasileiros permitem elevados ganhos de arbitragem (originados da diferença entre os juros internacionais e os juros nacionais), o que estimula a entrada de capital financeiro, sobretudo de natureza especulativa. Com o aumento da entrada de dólares (aumento da oferta), o preço do dólar em reais cai. Dólar barato ajuda a reduzir os preços em geral e faz com que os brasileiros aumentem seu poder de compra, o que no curto prazo gera vantagem para a população. No entanto, no médio e longo prazos, produz graves conseqüências para a economia brasileira ao desestimular as exportações e favorecer as importações.

O real forte ameaça a capacidade da economia brasileira de conseguir dólares através do comércio externo e assim reduzir nossa dependência ao capital financeiro internacional. Dado o alto grau de vulnerabilidade externa de nossa economia (decorrente da grande necessidade de moeda estrangeira para honrar nossa dívida externa e da baixa quantidade de reservas internacionais), não é razoável que novamente os benefícios de curto prazo do dólar barato permitam que nosso superávit comercial seja comprometido e que o Brasil deixe de crescer mais adiante por falta de dólares. Sempre é bom lembrar da importância da História para a Economia, pois ela, entre outras coisas relevantes, permite que os economistas não repitam erros do passado.

João Pamplona
Profissão: assessor econômico da Equifax
Site: Não Fornecido
e-mail: Não Fornecido

 

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