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Crédito ao consumidor e desempenho da indústria

Recentemente o IBGE divulgou que a produção industrial brasileira cresceu 1,7% em março de 2005, na comparação com março do ano passado. Esse resultado revelou que a indústria vem ainda sustentando desempenho positivo, mas cada vez menor (no segundo semestre de 2004 a taxa média mensal de crescimento da produção foi de 8,3%). Fala-se em desaceleração da atividade industrial. Na verdade, vive-se uma “quase estagnação” do setor.

Diante da persistente, prolongada e contínua elevação da taxa básica de juros pelo Banco Central, não é de se estranhar que se verifique significativa redução da atividade econômica. No entanto, a questão que surge é a seguinte: por que “quase estagnação” e não simplesmente “estagnação”?

Os juros elevados e a valorização cambial deles decorrentes têm afetado e adiado investimentos. Por outro lado, o consumo não tem sido tão atingido e cresce graças à considerável expansão do crédito ao consumidor. A ampliação das possibilidades de financiamento de bens de consumo tem funcionado como efeito amenizador da política de juros altos. Os dados do Banco Central, disponíveis e mais recentes, mostram que as operações de crédito à pessoa física cresceram 34,4% entre março de 2004 e março de 2005. Nesse mesmo período, destacam-se o crescimento do financiamento para aquisição de veículos (25,8%) e especialmente o aumento muito expressivo (49,0%) do crédito pessoal, no qual está incluído o crédito consignado em folha de pagamento, que tem sido impulsionado nos últimos meses pelas operações destinadas aos aposentados.

Essa importante expansão do crédito ao consumidor tem sido vista pelo Ministério da Fazenda como um fator que torna mais difícil o controle da inflação. Para conter os “efeitos inflacionários” da ampliação do crédito ao consumidor, o Banco Central aumenta continuamente a taxa de juros básica da economia. Cria-se assim uma contradição, pois o governo que promove alterações institucionais que permitem a expansão do crédito à pessoa física é o mesmo que procura reduzir esse crédito por meio de sua política de juros. Tem-se uma situação na qual “o que é dado com uma mão é retirado com a outra”.

Diante da sempre renovada convicção dos formuladores e executores da política econômica em seguir elevando os juros, logo, a expansão do crédito ao consumo estará contida. Já há sinais de que as taxas de juros cobradas dos consumidores em abril último aumentaram e que a ampliação dos prazos das operações de crédito, forma de contornar os juros altos, chegou no seu limite. Além disso, há o risco da inadimplência aumentar, o que é uma situação comum no final de um ciclo de expansão do crédito. Com o aumento da inadimplência, a oferta de novos financiamentos para consumo diminuirá.

Sem o efeito amenizador do crescimento do crédito ao consumidor e com o prosseguimento da atual política monetária e cambial, a atividade econômica será reprimida e em breve já se falará em estagnação da indústria.

João Pamplona
Profissão: assessor econômico da Equifax
Site: Não Fornecido
e-mail: Não Fornecido

 

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