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Máfia italiana inspira fraudes no brasil

“Em outros países, as grandes fraudes são feitas por poucas pessoas. As conseqüências são devastadoras e seus autores, na maioria executivos-chave, manipulam balanços. Aqui, a maior parte é cometida por grupos organizados conhecidos como ‘máfias'.”

Estudo sobre fraudes realizado em 2002 com as mil maiores empresas brasileiras, públicas e privadas, comprovou duas coisas: elas vêm diminuindo lentamente e, o mais interessante, o brasileiro é mesmo muito criativo. Na pesquisa anterior, feita em 2000, 81% das companhias sofreram fraudes, enquanto na recente, foram 76%. O questionário foi respondido apenas por executivos dos escalões mais altos.

A fraude enfraquece na proporção em que a conscientização aumenta. No passado, os casos eram mantidos em segredo, mas, após os eventos Enron e WorldCom, nos Estados Unidos, tudo mudou. A obrigatoriedade de as empresas investigarem suas contas por lá gerou preocupação e mais disposição em relação a este assunto, o que se refletiu aqui. O que antes era um tabu, hoje é encarado pela maioria dos empresários como um grande problema e muitos acreditam que os golpes aumentarão. Os motivos citados são perda de valores sociais e morais, falta de controle, impunidade e problemas econômicos.

Grupos organizados

Em outros países, as grandes fraudes são feitas por poucas pessoas. As conseqüências são devastadoras e seus autores, na maioria executivos-chave, manipulam balanços. Aqui, a maior parte é cometida por grupos organizados conhecidos como “máfias”. Interessante notar que, ao se falar sobre o crime organizado no Brasil, usa-se a expressão “quadrilha”, onde não há laços entre os envolvidos que, geralmente, pertencem às classes sociais mais baixas. Uma “máfia” como a do orçamento ou a do combustível apresenta relações muito mais fortes, envolvendo pessoas de classe alta e até políticos. Nas empresas, é formada por um grupo que envolve vários departamentos.

“O criminoso que pertence a uma máfia não é um desajustado ou alienado. Ele participa de um sistema social do submundo da sociedade ou num mundo paralelo dentro da companhia.”

Tipos de crimes

Fazendo-se uma análise criminológica, vê-se que a estrutura tem muito em comum com a da máfia italiana. Além disso, fatores socioculturais da Sicília, dos séculos 19 e 20, estão refletidos no Brasil. No centro de todo grupo mafioso, não importa o objetivo, existe um pacote de quatro crimes. A fraude básica: obter vantagem ilícita mediante algum engano ou artifício. Corrupção: envolver pessoas no esquema para que o aprovem ou que mantenham sigilo. Extorsão: corromper e intimidar. Sonegação: a fraude gera uma receita sem origem que precisa ser justificada. Para isso, existe a famosa lavagem de dinheiro. Outra semelhança é o fenômeno de comprometimento entre os membros: se um fala, incrimina a todos. Existe um papel policial que é manter a ordem interna, deter a saída, punir quem faz algo errado, e até apagar os rastros do crime e queimar arquivos.

O criminoso que pertence a uma máfia não é um desajustado ou alienado. Ele participa de um sistema social do submundo da sociedade ou de um mundo paralelo dentro da companhia. No Brasil, não se sabe quem é quem. Não há o bom ou o ruim. O povo é o mais criativo para tudo: arte, música, propaganda e negócios. Também é muito audacioso. Do mesmo modo, esses adjetivos valem para o criminoso. Se ele ganha 50, quer 100, depois um milhão e assim por diante.

O que incentiva

Características típicas do país que incentiva o crescimento das máfias: falta distinção entre negócios legítimos ou ilegítimos; a economia paralela é a mais diversificada do mundo e é aceita pela sociedade; o mercado de câmbio paralelo é o mais sofisticado; o testa-de-ferro e o laranja são institucionalizados; existem o caixa 1, o 2 e o 3; a máfia é formada por homens de negócio; existe a cultura paternal por meio do coronelismo; a autoridade é baseada em homenagem, honra, respeito, obediência e medo; admiração pelo “esperto” e respeito por líderes cujo poder e riqueza vieram da exploração, da intimidação e da corrupção.

Não se pode mudar um país, mas estamos em um lento processo de moralização, porém, dentro deste universo, cada empresa pode criar o seu próprio mundo, e bom! Como isso é possível? Tratando o funcionário com respeito, em todos os níveis, dando alimentação, assistência médica, segurança no futuro, educação, sendo ética não apenas com eles, mas com o governo e os consumidores. Quanto mais transparente for a companhia, mais leal serão seus contratados. O resultado será um aumento na satisfação dos mesmos e um comprometimento com o lado bom. Claro que crimes sempre acontecerão, mas serão casos isolados e mais simples de se resolver.

Barry Wolfe
Profissão: Diretor da Divisão KPMG Forensic
Site: Não Fornecido
e-mail: bwolfe@kpmg.com.br

 

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