Nenhum chefe é líder
Nenhum chefe é líder, porque ser líder é ter outra dimensão como ser humano. A pessoa que aceitou exercer um cargo de chefia aceitou também a limitação de si mesmo como ser humano e a limitação de todos os que o cercam, assim com a tarefa de tratar tecnicamente de tudo. Ao chefe falta grandeza para entender e perceber que a vida não é feita apenas de certos ou errados, de brancos ou pretos, pois sua beleza está justamente nas nuances de cores e na riqueza de suas variações.
O chefe, tal qual o conhecemos, é um técnico que se dispôs a realizar determinado trabalho por intermédio das pessoas. O líder é um ser humano que se dispôs e assumiu a realização de uma missão com as pessoas. Chefe e líder são totalmente diversos e incompatíveis, pois o líder não é o chefe melhorado, mas sim outra forma de ser, viver e se realizar.
A motivação do chefe é material, portanto, temporal; a do líder é espiritual, portanto, atemporal. O chefe quer que as coisas sejam feitas da forma certa; o líder quer que as coisas certas sejam feitas, não importando de que forma. Para o chefe, o erro é sempre um problema grave e sinônimo de custo/desperdício; para o líder, o erro é uma lição a ser muito bem aproveitada. O chefe pensa e fala eu; o líder pensa e fala nós.
Como se vê, há total incompatibilidade entre os dois papéis. O chefe olha para o ontem, quer fazer o hoje e jamais vê o amanhã; enquanto o líder olha sempre para o amanhã (seu objetivo) para fazer o hoje e jamais vê o ontem. O que não significa em absoluto que um seja o bom (o líder) e o outro o ruim (o chefe). Não há esse negócio de bom ou ruim. Há, isso sim, competências diferentes, o que significa dizer que em alguns momentos o chefe é a melhor solução, e em outros a liderança é a melhor alternativa.
É claro que o exercício da liderança exige muito mais talento e competência que o da chefia. Para esta basta sentar na cadeira do chefe e exercer controles mecânicos, basta saber planejar, organizar, coordenar, controlar e corrigir. Já para a liderança se faz necessário ter sensibilidade, arte, intuição e total dedicação ao coletivo. A liderança primeiro se ocupa com o interior das pessoas, e a partir daí é que constrói sua obra. O líder constrói e melhora pessoas.
O líder é ao mesmo tempo flexível e inflexível, algo que o tradicional chefe que conhecemos jamais seria capaz de ser. O líder é totalmente inflexível quanto aos fins, aos objetivos, ao que tem de ser feito, mas é totalmente flexível quanto aos meios. Afinal, tem consciência e grandeza para entender que, embora saiba muitas coisas, jamais saberá tudo, que todos os que participam da obra precisam tanto quanto ele se realizar ao fazer o trabalho e, principalmente, que todos conhecem coisas, formas e soluções que ele desconhece.
Para ser líder é preciso, além de ter nascido com talento e dom, exercitar a liderança: testar a si mesmo seguidamente, estudar com profundidade a natureza humana, desenvolver a sensibilidade e a intuição. O líder cativa as pessoas pelo comportamento e pela ética irrepreensíveis. Para ele não há dois pesos e duas medidas e a sua flexibilidade jamais será moral. As pessoas sentem que podem confiar plenamente nele, em qualquer circunstância, e ele nunca as desaponta.
O líder é todo ser capaz de realizar mudanças com amor e coragem, o que em absoluto significa que ele aceite ou se torne conivente com qualquer deslize ou seja o "bonzinho" da história. Não. Amor, aqui não quer dizer falta de comando. Muito pelo contrário. As pessoas sentem que ele se coloca inteiro na construção da obra coletiva e, portanto, jamais permitirá colocá-la em risco, nem que alguém a coloque.
O poder do chefe reside no cargo; o poder do líder reside nele mesmo - o que significa que para o exercício da liderança não se faz absolutamente necessário Ter cargo, basta Ser. O poder que se confere ao chefe tem sua origem na hierarquia e mete medo nas pessoas; o poder do líder é uma das armas que ele tem para atrair, aproximar e unir cada vez mais as pessoas em torno dele e do objetivo coletivo a ser atingido.
Nós estamos, infelizmente, condicionados a estudar a liderança a partir dos conceitos de chefia. Isso é um tremendo equívoco, pois não se chegará nunca ao amanhã partindo do ontem. Temos de começar a desassociar completamente os dois papéis. Não há nada de errado em ser chefe e há situações e momentos em que basta ser chefe, mas quando fazemos comparações fica sempre a sensação de que não ser líder é um defeito grave, o que não é absolutamente verdade. Seria o mesmo que dizer que para ser médica a pessoa não possa ser enfermeira. Estamos todos, mais uma vez, pagando nossos condicionamentos.
Será que liderança é a grande solução para todos os problemas e situações que se apresentam no dia-a-dia da empresa? E quando o líder dá um murro na mesa? Ele "desceu" de sua condição de líder e se tornou "apenas" chefe? Não há compatibilidade alguma entre as duas funções. Portanto, partir da comparação entre elas nos leva a permanentes equívocos.
Eduardo Botelho
Profissão: diretor do site www.eduardobotelho.com.br
Site: Não Fornecido
e-mail: Não Fornecido
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