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Reconhecer méritos? para quê?

Desde que você nasceu, a palavra que mais ouviu foi não. Por isso enfrentamos o dia-a-dia muito mais preocupados e condicionados com o negativo que com o positivo da vida. Isso tem um sério reflexo nas relações entre as pessoas no trabalho, principalmente entre chefes e chefiados.
Quer ver a aplicação prática disso? Quando o funcionário faz algo certo, a quase totalidade dos chefes raciocina assim: "Não fez mais que sua obrigação". E nada é registrado, dito ou comentado. Mas, quando o funcionário erra, a casa cai, literalmente, sobre ele. Então, lhe dizemos tudo o que temos direito e até o que não temos.

Já tive o desprazer de conhecer um empresário (que faliu várias vezes) que dizia textualmente o seguinte: "Quando eles acertam, eu não digo absolutamente nada, pois não fizeram nada além de suas obrigações, mas quando eles erram eu caio de pau mesmo. Afinal, eu não pago para eles errarem".

O que estamos plantando com esses procedimentos? Estamos formando um ambiente onde, sempre que possível, as pessoas vão fugir das responsabilidades ou situações diferentes da rotina, situações que representem riscos. Esses procedimentos fazem com que a delegação se inverta totalmente, pois passa a ser feita do funcionário para o chefe, quando deveria ser exatamente o oposto.
Outra perniciosa conseqüência desse comportamento é que ele faz com que as pessoas não tomem iniciativa alguma e fiquem totalmente dependentes de seus chefes para decidir ou resolver qualquer coisa. E depois ouvimos desses chefes o seguinte: "Aqui ninguém resolve nada, eu tenho de ver tudo, se não sou eu, ninguém se mexe. Mas quem foi que implantou o terror no ambiente? Foram os funcionários?

A grande verdade é que o sistema hierárquico que conhecemos e praticamos leva seres humanos medíocres, mas com poder, a brincar de Deus. Mas, como na realidade e na prática não são, ficam sem saber para onde correr ou o que fazer.
Quando foi a última vez que você reconheceu um trabalho ou esforço maior de seus funcionários? Acredite: reconhecimento faz bem e não custa nada! Além do que, ele dará a você muito mais espaço e até o direito de criticá-lo quando houver um erro.

Algumas pessoas dizem que não dão nenhum reconhecimento porque isso faz com que os funcionários fiquem "mascarados" e se julguem melhores do que realmente são. Outros afirmam que não dão porque acham que os funcionários aproveitariam a oportunidade para pedir aumento de salário.
Será que não temos recursos para resolver essas reações, caso elas venham a existir realmente? Isso justifica não valorizarmos correta e adequadamente o que foi bem feito? É melhor não ter esses problemas e ter pessoas desmotivadas e amedrontadas no trabalho?

De vez em quando alguém me pede o seguinte: "Professor, por favor, faça uma palestra para motivar meus funcionários, pois eles estão apáticos". De que adianta fazer essa palestra se a causa da desmotivação continuará existindo no ambiente?
Não adianta absolutamente nada, é claro.

Mas pior ainda do que não dar reconhecimento a ninguém é dá-lo só àqueles que são mais "chegados". Há chefes que conseguem a fantástica proeza de elogiar apenas algumas das pessoas que trabalham com eles. Quando isso acontece, o que vemos é que os puxa-sacos são aquinhoados com as benesses desses medíocres chefes, enquanto aqueles que não se dispõem a realizar o mesmo "exercício" ficam relegados ao esquecimento. Inclusive no que diz respeito aos erros, fica flagrante a diferença do tratamento dado aos "mais chegados", pois para estes o critério de análise é sempre muito mais elástico que para os não puxa-sacos.


A pior coisa que uma empresa pode fazer é manter em um cargo de chefia alguém que é medíocre como ser humano, pois qualquer que seja o talento que venha a surgir em seu setor será imediatamente guilhotinado. Não há nada mais mediocrizante que um chefe medíocre. Não reconhecer méritos em quem os tem é uma prova inconteste e indisfarçável de mediocridade. E reconhecer os de uns e não os de outros é aumentar à centésima potência o grau dessa mediocridade.
Temos de rever, imediatamente, alguns dos procedimentos que aprendemos ao longo do tempo e se implantaram como uma Segunda pele em alguns de nós. O salário felicidade é uma arma formidável nas mãos de um chefe competente e é uma inutilidade nas mãos de um incompetente... com poder.

A principal falha desses chefe é não saber ouvir. Parece até que alguns têm medo de fazê-lo. E todos que agem dessa maneira são centralizadores e inseguros. Alguns até dizem: "Eu sou um burro de carga, pois aqui tenho de olhar e fazer tudo, não posso nem pensar em tirar férias". Desculpe a grosseria da afirmação, mas não tenho outra forma de dizer o que preciso: você não é um burro de carga, não, você é só um burro que adora a carga que carrega.
Para encerrar: você gosta quando alguém lhe faz um elogio sincero? Então por que acha que os outros não gostam?

Eduardo Botelho
Profissão: diretor do site www.eduardobotelho.com.br
Site: Não Fornecido
e-mail: Não Fornecido

 

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